As coisas que fazemos sempre acabam voltando.
Mais cedo ou mais tarde, daqui a um ano ou mesmo amanhã, as coisas que fazemos, as decisões que tomamos, voltam a nos assombrar. Ou agradar.
É fato. Ao menos para mim.
E pode doer ou não.
Pode ser uma lembrança agradável, uma gargalhada solitária, ou o choro mais sincero numa noite interminável.
Pode ser aquela imagem maravilhosa de uma tarde inesquecível, aquele pôr-do-Sol que você jurou jamais esquecer (e que, até agora, não esqueceu), aquele domingo em que você pulou na piscina do pesqueiro ao lado só de farra, mesmo com um céu nublado, ou mesmo aquela tarde em que esperou pelas estrelas em cima do muro, com seu cachorro a te observar lá de baixo, deitado, sem entender muita coisa do que se passava em seu coração.
Pode ser aquilo que você disse à sua mãe e que, se fosse hoje, jamais teria dito. Pode ser somente aquela tarde em que você não queria ir à escola, mas foi. Pode ser o dia em que seu cachorro morreu, ou as lembranças de seu avô almoçando com você. Pode ser o fato de você ter traído alguém de quem gostava muito e de jamais ter se perdoado por isso. Pode ser a dor de ver que o tempo atropela os momentos que você esperou demais.
Aquela vez em que você jogou bola e choveu granizo, o dia em que você pensou ter sido envenenado por uma cascavel e não foi, a noite em que você estava estudando pro vestibular na sala e sua família apareceu com um bolo, te fazendo uma festa surpresa. Aquela madrugada em que você achou mesmo que ia morrer. A tarde em que você deu seu primeiro beijo e a noite em que transou pela primeira vez, todas numa terça-feira. A velocidade deliciosa e o frio absurdo de quando você voltava de bicicleta, bem à noite, da faculdade. A sensação única de quando você faz o seu melhor kata. O cheiro do mar e a sensação de voltar ao interior. Pirassununga. Cerrado. Aquela vez em que desceu o Rio Mogi de bóia e tentou voltar a pé pela estrada. A maior briga que já teve com seu irmão e o quanto ficou claro pra você, naquela noite, que você o ama. O quão agressivo você pode se tornar quando perde a cabeça e o quão carinhoso você pode ser quando está tudo bem. Todas as mijadas em equipe lá de cima daquelas colunas, voltando das baladas. O tombo de bicicleta que lhe custou dois dentes de leite. Os rostos de seus amigos, cheios de lágrimas, na última noite antes de se mudar para Santos - a mesma noite que antecedia sua primeira viagem a Itirapina. Os quatro anos morando em São Carlos com seu terceiro irmão. Todos os futebolzinhos no quintal do Daniel e todas as vezes em que você ficou completamente insano com pinga ou cerveja. Aquela lona do Interbio. O fim de ano conturbado e as consequências tristes que chegaram no carnaval. A incerteza do quão culpado você é e, ao mesmo tempo, a certeza de que é completamente inocente.
Todas as culpas que assumiu, todas as mancadas que deu, toda a alegria que trouxe a si e aos outros e toda tristeza que várias vezes provocou. Todas as chuvas que já tocaram o seu corpo, a sua pele. Toda dor que já passou. Todo amor que passou e que ficou, que já sentiu e que ainda sente. Todas as suas escolhas, tenham elas sido certas ou erradas.
Me faltam palavras e me sobram lágrimas e lembranças.
Algumas das lágrimas que agora choro são de tristeza, de um arrependimento masoquista de quando reviramos o passado e recalculamos os preços de algumas escolhas. De quando insistimos em nos perguntar "e se...?".
Outras lágrimas são da mais completa alegria, de quando, involuntariamente, revivemos os momentos mais felizes de nossas vidas e rimos novamente por saborear várias sensações, todas juntas, uma vez mais.
Eu rio e choro.
Hoje me encontrei assombrado por grandes fantasmas. Alguns eram terríveis... cinzentos, dolorosos, mas foram embora.
Quanto mais você conseguir viver de acordo com tudo aquilo em que acredita de coração, quanto mais limpo você jogar consigo mesmo e com os outros, quanto mais se permitir errar e acertar na medida certa, mais gargalhadas virão de encontro a você no futuro, pois poucas assombrações ousarão te incomodar.
Uma vez mais, coloco na balança o presente e o passado. Revejo velhas decisões e me observo com muita atenção, tentando descobrir se estou no caminho certo (o meu caminho certo, já que "certo e errado" é uma definição bastante pessoal).
Tenho certeza de que não será a última vez que faço isso, mas não me importo. Hoje, acredito estar no caminho certo, acredito ter sido um bom menino.
5 comentários:
nao sei se é pela TPM - sim , ela mesma, a malvada - mas sei q chorei lendo seu texto. sao coisas muito pessoais (suas) e q fico contente por fazer parte de algumas delas. vc fala de coisas suas e nossas e me faz pensar tb a qto amo vcs!
ciao, imogemi
Ah, que bunito que ficou...encheu os zoinho de água. chuif. (que menino fofo, gente...)
...
Li o texto inteiro enquanto tocava "Out of the frying pan (and into the fire)" que significa muito pra nós dois.
Enquanto você alinhava cada sensação, eu ouvia "So wander down the ancient hallway, taking the stairs only one at a time", sendo levado pelas suas palavras e pelo próximo verso da música: "Follow the sound of my heartbeat now" que quem cantava era você.
E veja só: não é só quando a gente briga que a gente saca quanto nos amamos. De muito do que você falou eu fiz parte (só estando lá pra saber o que é uma "mijada em equipe lá de cima das colunas"). E do que eu não fiz parte, hoje eu faço. Eu te vejo olhando as estrelas do muro da Painguás, te vejo na Av. São Carlos de bicicleta - talvez levando uma portada de um carro - e te vejo muito bem fazendo seus katas com aquela força que só você é capaz de dedicar às coisas.
Aquela mesma força que você pôs no teu texto, e que me faz terminar esse comentário com lágrimas nos olhos.
Te amo muito também!
E amo a Val demais, que nos lê de vez em quando!
"De vez em quando sou acusado de saudosismo, se como saudade fosse uma coisa vergonhosa"
...caramba...eu choro e não sei o que escrever. E li o texto justamente em uma noite de sábado em que me lembrava de como foi bom esse passado. Para você que gosta de "pistinhas da vida", pode crer que esta foi uma. Abraço e saudades.
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