- Mestre!
O silêncio rompido despertou o paciente velho de sua meditação:
- Diga.
- É que... ééééé... como vou dizer? Acho que não quero mais!
Não deu atenção. Mas o aluno insistiu:
- Não quero mais. Quero outro. Não posso trocar?
O mestre já havia ouvido isso várias vezes. Incontáveis vezes, de várias maneiras diferentes e vindo de vários alunos diferentes. Era uma dúvida comum a qualquer aluno e o velho já sabia exatamente como agir. Para sanar a dúvida, fez a pergunta mais simples:
- Você não está feliz?
- É, acho que estou.
- E isso não é bom?
- É. É sim!
O velho sabia que não acabaria aí, então fez a penúltima pergunta:
- E isso não é o que todos buscam?
- É.
Com todos seus anos de prática, o velho conhecia por completo cada um de seus alunos, e era capaz de saber antecipadamente a resposta de cada um deles à última questão, a pergunta decisiva:
- E não é o suficiente ter o que todos buscam?
- ...
O velho se sentiu inquieto, mas disfarçou. Após mais alguns segundos de pausa, com o olhar voltando-se do chão para os olhos do mestre, o aluno respondeu:
- Não...
Incontáveis vezes o velho havia ouvido essa mesma resposta, sem jamais se surpreender. A partir daí, cada aluno seguia seu caminho, como devia ser. Só que, desta vez, era diferente. Completamente inesperado. Mesmo com tantos anos de prática, o mestre não pôde prever a decisão desse aluno - seu aluno favorito. Então tentou fazer o possível para interceder, mas sem interferir:
- Por que não é suficiente ser feliz?
- Não sei essa resposta, mestre! Só sei que sinto uma coisa aqui dentro, uma força me dizendo pra buscar a felicidade outra vez, como se eu não a tivesse de fato. Não sei explicar, mas sinto que há algo de errado em tudo como está e, por isso, preciso arriscar!
O mestre percebeu que aquilo era pra valer. As palavras eram verdadeiras e os olhos do menino - ainda que confusos - não mentiam. Ele tentou o quanto pôde, mas sabia qual seria o resultado:
- A decisão que está prestes a tomar não tem volta e poderá te custar muito caro. Você é jovem e tolo, e não sabe o que está fazendo.
Sem se revoltar, o garoto respondeu:
- Sei disso. Já pensei em tudo isso! Já pesei tudo que tenho, tudo que posso perder. Já fiz e refiz essa escolha, mas, mesmo sem ter certeza de nada, sinto que preciso fazer isso. Largar tudo pra começar tudo de novo. Preciso ter certeza sobre o amor, a felicidade... se realmente já estive lá alguma vez. Preciso dessa experiência. Preciso me colocar à prova! Uma vez mais... pra ter certeza.
O mestre sabia que ouviria isso, pois ele próprio já havia trilhado esse mesmo caminho. Então fez a única coisa que estava ao seu alcance... aconselhou:
- Você nunca terá certeza. Essa é a única verdade. Não existem certezas. Apenas os sentimentos. E, se a dúvida for maior que a felicidade, se a dúvida for maior que o amor, então parta em busca deles novamente, sem jamais perder a esperança de encontrá-los. Mas nunca se esqueça que não existem certezas em relação à felicidade e ao amor.
Com os olhos cheios de lágrimas, o menino partiu. Deixou pra trás muito do que tinha, levando pouco consigo. O mestre fechou os olhos, inspirou profundamente, expirou todo o ar e voltou a meditar. Lá, no fundo de sua mente, refez seus próprios passos. Naquele momento, ele soube exatamente onde o menino iria chegar.
2 comentários:
Oi. Só hoje que eu li esse...
Não me pareceu muito...desconhecido. Nhééé.
Beijo.
boa reflexão.
mas lembre-se: "em micareta só tem aidético".
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