Por três meses correu feito um louco na escuridão. Avançou por incontáveis correntezas e atravessou por pouco um sem número de penhascos - todos mortais! Tantas vezes escalou e alcançou o cume de dezenas de montanhas, só pra perceber quantas mais ainda precisavam ser escaladas. Vagou sozinho pela escuridão, caminhou exaustivamente com o Sol queimando o seu rosto. Em desespero, recorreu à ajuda de tantos, cujos conselhos não fizeram mais que confundí-lo. Tentou, em vão, preencher os espaços que faltavam com fragmentos de felicidade efêmeros. Permitiu-se ser amado, mas se sentiu amarrado por não ser capaz de retribuir. Correu o mais rápido que pode quando encontrou uma brecha; lançou-se aos céus sem hesitar quando percebeu um facho de luz rasgando as sombras. Bolou planos mirabolantes e estratégias impecáveis que falharam prontamente.
Ele tentou. Tentou com todas as forças, duvidou e acreditou de tudo e em tudo. Exausto, entrou em desespero ao perceber a fragilidade da vida, o bom-humor dos deuses e a prepotência do destino. Foi então que parou. Baixou sua guarda, fechou seus olhos na escuridão e entregou-se. Não havia mais nada a ser feito. Sozinho, soltou seu peso sobre o chão frio. Tão frio...
Abandonado, machucado, magoado, arrependido, usado. No entanto, por mais que não quisesse, havia ainda um fio de esperança dentro de si. E em meio à solitária escuridão, uma discreta luz se acendeu. Ele abriu os olhos com dificuldade, na esperança de, finalmente, encontrar uma solução. E encontrou: cercada por uma luz vermelha estranhamente sutil, estava ali, bem à sua frente, uma saída de emergência.
Talvez ela estivesse ali o tempo todo. Talvez ele tivesse perdido tempo demais calculando o tempo, a altura das montanhas, a distância das coisas ou a velocidade das águas. Talvez ele tivesse dado importância demais aos outros ou pouca importância à sua carência. Talvez ele não tivesse compreendido de verdade a neutralidade dos deuses, do destino, da vida e da morte.
Pois bem. Qualquer que tenha sido o motivo, por maior que tenha sido sua angústia por estar ali e sua ansiedade para sair dali, levantou-se e caminhou devagar em direção à saída. Era uma sutil luz vermelha envolvendo uma nada grandiosa saída de emergência. Mas, ainda assim, era uma saída!
Ainda que algumas das cicatrizes permaneçam em seu corpo durante toda sua vida, ele conseguiu sair de lá...
seguiu adiante...
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